​Camarote Portela apresenta cenografia com homenagem ao enredo “O Mistério do Príncipe do Bará”

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O Camarote Portela é um dos locais mais concorridos da Sapucaí. Um dos grandes destaques do último ano foi a cenografia para além de suas paredes, transformando espaços que contaram histórias e provocaram emoções. O local destacou o enredo, que trouxe em cada ala o impacto do artista homenageado, e onde através de metáforas e simbolismo contou ao público como os Portelenses se sentem ouvindo a música do seu desfile. 

Para esse ano, não poderia ser diferente. Assinada pela Mango, o Camarote Portela faz uma curadoria minuciosa do enredo "O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande", e propõe um mergulho simbólico, espiritual e político no legado de Príncipe Custódio. Um legado que atravessou o tempo com presença espiritual, articulação política e impacto cultural, conectando religiosidade, resistência e identidade negra no Sul do Brasil.

Mergulhar na herança africana do Rio Grande do Sul é enfrentar camadas profundas de apagamento histórico e se mostrou o grande desafio para essa edição. Toda a curadoria artística e ocupação cenográfica se desenvolve sob a escuta atenta e a orientação de Jonathan Raymundo, professor, escritor e consultor para os desdobramentos e expressões da cultura preta neste projeto. 

“Tratar com seriedade os enredos que nos são confiados nos engrandece como profissionais e transforma nossa cenografia em um verdadeiro mergulho imersivo, responsável e necessário. Unimos forças para abrir espaço, escuta e protagonismo, permitindo que artistas pretos e pensadores se expressem com autoridade, sensibilidade e verdade sobre o enredo. Assim nasce nossa curadoria artística: um processo minucioso, generoso e transformador para todos os envolvidos”, diz a diretora criativa Julia Paula.

O resultado é uma visualidade que honra o passado sem aprisioná-lo, criando pontes entre memória, arte e contemporaneidade. A estética preta não aparece como ornamento, nem como reprodução caricata. Ela é estrutura, narrativa e presença viva. Os espaços carregam ancestralidade sem recorrer ao clichê, ao exotismo ou à folclorização. É cotidiano, é político, é real.

Como primeiro ato, o camarote convidou Salemm, fotógrafa e diretora de arte de pensamento contra-colonial, conhecida como Fotogracria, para desenvolver um ensaio de fotos inspirado no enredo. Sua galeria, nomeada por ela, ocupará um dos principais buffets do espaço.

otogracria trabalha a imagem como ferramenta de percepção e afirmação. Seu olhar constrói narrativas visuais a partir de quem vive os territórios, promovendo uma representação positiva, potente e complexa da favela. Corpo, música e identidade se cruzam em sua linguagem, reforçando a imagem como espaço de memória, presença e resistência.

O resultado é uma visualidade que honra o passado sem aprisioná-lo, criando pontes entre memória, arte e contemporaneidade. 

“Mais do que ocupar um espaço, este Camarote escolhe reposicionar narrativas, devolver centralidade e honrar histórias que sempre estiveram aqui — mesmo quando tentaram apagá-las”, completa a arquiteta e cenógrafa Bárbara Boy.

Além disso, na subida para o segundo andar, que é sempre um ponto emblemático do Camarote -, haverá dois búzios gigantes da artista plástica Julia Cavalcanti Di Siqueira, que representam dois pulmões - ligando o Brasil à África.”Essas peças da Julia representam o Custódio, que liga os povos escravizados no Brasil com a sua terra de origem. Uma representação de elo. Junto vem uma frase sobre o oceano, que faz lembrar dessa ligação, dessa origem da Terra”.

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